Carta aberta a G.

Querido G.,

Nem sei por onde começar. Quando soube da sua história, da adoção e das surras, você e seus colegas de classe me viram ficar perdida. Mas era necessário registrar os fatos, afinal a quem cabe a defesa de uma criança de 6 anos e suas duas irmãs menores? Aos adultos.

E nós adultos nos encantamos com você, G. Seu sorriso fácil, sua alegria, sempre pulando nos braços de alguém. Tão querido em tão pouco tempo… E tão dócil… Todos nos apiedamos e ficamos com o coração apertado ao pensar nas suas irmãzinhas, que já queriam voltar para o abrigo.

Naquela sexta-feira que não te vi, estranhei sua ausência. Sequer imaginava que você havia sido levado ao velho orfanato em Curitiba, onde lhe esperavam menos brinquedos coloridos, mas menos maus tratos. E nós os adultos ficamos pensando muito sobre o que era mais relevante. Eu, adulta, penso que amor nunca deve ser ligado a medo, que proteção não pode ter violência.

Ainda assim, os adultos choraram com sua ida. Talvez choremos porque não haverá mais livros coloridos, histórias na biblioteca e brinquedos com blips na sua vida, mas me consola a idéia de que haverá menos lágrimas também. Mas é uma decisão complicada – como vida de adulto. Como sua vida, né, G.?

Desejo a você que encontre um motivo para sorrir aquele sorriso largo a cada dia, que proteja suas irmãs e procure permanecer junto delas enquanto for possível. Desejo que alegre as vidas ao seu redor e um dia alegre uma garota especial e tenha filhos a quem possa fazer sorrir ao invés de chorar. Desejo que seja livre, muito livre, e que o único lugar em que possa estar preso é na memória dos adultos que puderam te conhecer nessa breve passagem por Ribeirão Preto.

Fica com Deus. Nós te amamos, G.

twitting no blog

Já que não tenho tido tempo para posts longos ou profundos ou engraçados ou criativos, eis que vou twittar no blog.

- Êba que o friozinho chegou. Cobrir quem a gente ama e está gelado gelado do nosso lado não tem preço. “Brigado, brigado, brigado, zzzzzz”

- Precisava tomar uma providência e está feito – tem um aparelho de ginástica de proporções gigantosas na minha varanda! Agora falta uma trilha sonora pra embalar as sessões de work out.

- Não, não vai virar cabide. Até porque está na sacada… :P

- Eu resolvi que se eu quero ter tempo para páginas na vida real, preciso parar de fazer via-sacra nas páginas virtuais. Estou há 24 horas sem visitar sites de fofoca! Página virada?

- Deus abençoe os feriados prolongados. E as viagens pra Santos, minha família e amigos e bebês nascidos em 17 de abril.

- Microblogging rules. Bye.

nem tão poética…

Onde eu trabalho, servimos. Servimos educação. Servimos bons modos. Servimos pequenas porções de paciência, servimos aperitivos da vida real, que está lá – fora da escola.

Servimos em turnos diversos, respondendo, portanto, a vários gerentes. O dono é transitório. Mais uns anos e estaremos “sob nova direção”. E assim vamos indo: dia novo, cardápio antigo.

Escrevi um poeminha pra contar sobre o que aconteceu entre servir uma mesa e outra. Fica à vontade: é self-service!

O gerente incontido

convoca reunião

Já não vê a hora

de passar o seu sermão.

 

Com todos desconfiados

Começa a danação

“garçons, ‘cês ‘tão encrencados”

– E ‘bora reclamação!

 

“O dono não aprova

o comportamento dos peões

A gerente aqui concorda,

chega de escorregões”

 

“Folga é para os fracos

Regras claras, pra quê?

A gente pisa nos cascos

E espera a água ferver!”

 

“Agora que o bicho é comigo,

não aceito reação

Afinal no meu umbigo

Só creme e esfoliação!”

 

“Se não puderem ceder

Tudo deve piorar

Não quero mais defender

Muito menos ponderar”

 

E os garçons assustados

Pouco puderam fazer

Sem saber pra qual lado

Poderiam eles correr

 

Quando o dono nervoso reclama

A mola não é de contenção

A inconsistência não sana

Já impõe a repressão

 

“E agora todos vocês

cantem aquela canção

Que a aniversariante do mês

merece nossa atenção”

 

Os lábios puseram-se a cantar

palavras sem expressão

cada uma que caía

fazia um buraco no chão.

 

E enquanto o silêncio imperava

todos ouviram o som

Dos laços que se cortavam

entre a gerente e os garçons.

 

Karina Poeta para o pinguinsdizemkaboom.