Carta aberta a G.
Querido G.,
Nem sei por onde começar. Quando soube da sua história, da adoção e das surras, você e seus colegas de classe me viram ficar perdida. Mas era necessário registrar os fatos, afinal a quem cabe a defesa de uma criança de 6 anos e suas duas irmãs menores? Aos adultos.
E nós adultos nos encantamos com você, G. Seu sorriso fácil, sua alegria, sempre pulando nos braços de alguém. Tão querido em tão pouco tempo… E tão dócil… Todos nos apiedamos e ficamos com o coração apertado ao pensar nas suas irmãzinhas, que já queriam voltar para o abrigo.
Naquela sexta-feira que não te vi, estranhei sua ausência. Sequer imaginava que você havia sido levado ao velho orfanato em Curitiba, onde lhe esperavam menos brinquedos coloridos, mas menos maus tratos. E nós os adultos ficamos pensando muito sobre o que era mais relevante. Eu, adulta, penso que amor nunca deve ser ligado a medo, que proteção não pode ter violência.
Ainda assim, os adultos choraram com sua ida. Talvez choremos porque não haverá mais livros coloridos, histórias na biblioteca e brinquedos com blips na sua vida, mas me consola a idéia de que haverá menos lágrimas também. Mas é uma decisão complicada – como vida de adulto. Como sua vida, né, G.?
Desejo a você que encontre um motivo para sorrir aquele sorriso largo a cada dia, que proteja suas irmãs e procure permanecer junto delas enquanto for possível. Desejo que alegre as vidas ao seu redor e um dia alegre uma garota especial e tenha filhos a quem possa fazer sorrir ao invés de chorar. Desejo que seja livre, muito livre, e que o único lugar em que possa estar preso é na memória dos adultos que puderam te conhecer nessa breve passagem por Ribeirão Preto.
Fica com Deus. Nós te amamos, G.
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- 23/04/2009
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