Há aproximadamente dois meses eu participei de uma atividade em que todos foram convidados a plantar uma semente. Cuidar dela, como se deve cuidar e cultivar um relacionamento.
Eu resolvi plantar uma semente de ipê. Passei um tempão na expectativa, sonhando se seria amarelo ou roxo ou branco – mas torcendo mesmo pra que fosse rosa, como uma bailarina!
Eis que a semente brotou e foi crescendo. Daí eu replantei num vasão, depois eu voltei pra um vasinho, por recomendação do meu pai. A danada mostrou suas folhas serrilhadas, enquanto eu fazia mil conjecturas de onde iria transplantar um árvore de tamanhas proporções etc e tal.
“Dani, dá tempo da gente comprar uma casa com jardim e plantar o ipê lá?”
“Karina, topa fazer um bonsai do seu ipê junto comigo?”
“Você deve fazer um exercício de fidelidade com essa planta”.
Na verdade, não. Na verdade fidelidade faz parte da minha constituição, o que me falta é aquele famoso hold your horses. Viver um dia de cada vez, cuidar do que está diante de mim sem me perder em como vai ser isso daqui a três meses, OMG OMG OMG.
Então lá estou eu na terapia que eu mesma criei para esse problema que eu mesma diagnostiquei. E tenho sofrido deveras com essas chuvas e tempestades constantes em Ribeirão: como proteger as plantas o tempo inteiro? como fazer pros vasos não cairem com a ventania? pras plantas não desidratarem no vendaval? não morrerem afogadas?
“As plantas são da natureza, Ká. Elas vão se entender com as tempestades, que também são da natureza”
Ontem à meia noite e meia, tentando salvar algumas plantas do aguaceiro, vi que meu ipê (mirim, de jardim, conforme soube) simplesmente moirreu!
Moirreu assim, do nada. Sem memorando. Então eu umedeci a terra e resguardei a planta. Voltando do trabalho hoje, pude confirmar: time of death - 12.30 am!
E a terapia foi bem mais curta do que eu esperava (cuidar da árvore pra sempre x cuidar do vaso 2 meses), mas igualmente eficiente. Eu não fiquei aborrecida. A natureza seguiu seu rumo. Eu cuidei da parte que me cabia um dia de cada vez – e soube quando parar. E o melhor vem agora: eu sei que as ruas por onde eu passo vivem forradas dessas sementes pelo chão, esperando o momento que eu quiser novamente acolher uma dessas aqui em casa e começar de novo. E está tudo certo.
Mas da próxima vez, ainda que isso dê a maior confusão, eu bem que queria que fosse um ipê rosa. Se queria!!!