nem tão poética…

Onde eu trabalho, servimos. Servimos educação. Servimos bons modos. Servimos pequenas porções de paciência, servimos aperitivos da vida real, que está lá – fora da escola.

Servimos em turnos diversos, respondendo, portanto, a vários gerentes. O dono é transitório. Mais uns anos e estaremos “sob nova direção”. E assim vamos indo: dia novo, cardápio antigo.

Escrevi um poeminha pra contar sobre o que aconteceu entre servir uma mesa e outra. Fica à vontade: é self-service!

O gerente incontido

convoca reunião

Já não vê a hora

de passar o seu sermão.

 

Com todos desconfiados

Começa a danação

“garçons, ‘cês ‘tão encrencados”

– E ‘bora reclamação!

 

“O dono não aprova

o comportamento dos peões

A gerente aqui concorda,

chega de escorregões”

 

“Folga é para os fracos

Regras claras, pra quê?

A gente pisa nos cascos

E espera a água ferver!”

 

“Agora que o bicho é comigo,

não aceito reação

Afinal no meu umbigo

Só creme e esfoliação!”

 

“Se não puderem ceder

Tudo deve piorar

Não quero mais defender

Muito menos ponderar”

 

E os garçons assustados

Pouco puderam fazer

Sem saber pra qual lado

Poderiam eles correr

 

Quando o dono nervoso reclama

A mola não é de contenção

A inconsistência não sana

Já impõe a repressão

 

“E agora todos vocês

cantem aquela canção

Que a aniversariante do mês

merece nossa atenção”

 

Os lábios puseram-se a cantar

palavras sem expressão

cada uma que caía

fazia um buraco no chão.

 

E enquanto o silêncio imperava

todos ouviram o som

Dos laços que se cortavam

entre a gerente e os garçons.

 

Karina Poeta para o pinguinsdizemkaboom.